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A Girl's Story, Annie Ernaux

há 11 horas
4 min de leitura

Tentemos ver esta review como uma humilde tentativa de explicar o que sinto acerca do livro “A Girls Story” de Annie Ernaux. Penso que nunca deixa de ser conveniente sublinhar que um texto de opinião reflete a opinião de quem o escreve (só naquela de se manter fiel à natureza do tipo de texto). Naturalmente, não substitui a leitura do livro, que eu encorajo vivamente, e para quem não o fez, aviso que se seguem spoilers.




“There are beings who are overwhelmed by the reality of others, their way of speaking, of crossing their legs, of lighting a cigarette. They become mired in the presence of others. One day, or rather one night, they are swept away inside the desire and the will of a single Other."



O livro começa com este retrato que funciona como o convite perfeito para uma reflexão sobre a ideia da destruição da nossa identidade em detrimento de uma performance na história de outra pessoa, numa narrativa fora do nosso controlo e compreensão.


O enredo passa a acompanhar a história de uma jovem nos seus vintes, que cresceu e foi criada num meio religioso. Annie Ernaux revisita o “summer of 1958”, a primeira vez que teve um cheirinho de liberdade, a trabalhar num campo de férias. Ansiosa para experienciar o mundo, desde os 13 anos que “sonha” com rapazes, mas não sabe como os abordar. Com altas expectativas, achava que este verão ia ser o começo triunfante da sua emancipação, coisa que, spoiler alert, acaba por não se concretizar.


O relato passa a descrever a primeira noite que ela passa com um homem, e o que foi apenas um breve (e insatisfatório) encontro sexual, ela concebe como um romance idílico. A partir do momento em que ela começa a experienciar a sua sexualidade, a sua reputação fica manchada e esta fase de comportamento impulsivo é descrita, em retrospetiva, como sendo marcada por um profundo sentimento de vazio.

Ao recontar este verão, que 50 anos depois ainda assombra a escritora, é explorada a relação intrínseca entre memória, identidade e a persistência (ou renúncia) da identidade ao longo do tempo:


Frida Kahlo, The Two Fridas (1939)
Frida Kahlo, The Two Fridas (1939)

“I too wanted to forget that girl. Really forget her, that is, stop yearning to write about her. Stop thinking that I have to write about this girl and her desire and madness, her idiocy and pride, her hunger and her blood that ceased to flow. I have never managed to do so.”





Ernaux brinca com a dicotomia da dissociação dela própria com a “girl of ´58”, na esperança de conseguir recontar os acontecimentos de forma imparcial, e a integração de partes do seu passado na mulher que é hoje:


“I am not constructing a fictional character but deconstructing the girl I was.”



O romance também desconstrói e escrutiniza as restrições impostas pela sociedade na sexualidade feminina, e como adolescentes interiorizam estas expectativas. Senti que as experiências sexuais da escritora podiam servir como um “case study” da dificuldade que as mulheres sentem em balançar os desejos pessoais com os julgamentos, e a coexistência e dificuldade de conciliação do orgulho por ser um objeto de desejo e desconforto com alguns rótulos impostos. Ela chama a isto “a girl’s shame”, que pinta simultaneamente uma emoção pessoal e um produto das pressões da sociedade. 



“She has received the answer to her question, the one asked by most girls of her time: How am I supposed to conduct myself? With freedom.”



Ernaux reflete sobre imensos tópicos que não passam despercebidos no processo de crescimento de qualquer mulher. Aborda misoginia internalizada, através das relações entre mulheres, e o seu papel em perpetuar ou desafiar estes padrões. Descreve de forma perfeita como as nossas relações umas com as outras, muitas vezes são um espaço onde coexiste apoio e julgamento, e um papel dúbio de aliadas ou agentes da imposição, destas regras das quais estamos a tentar fugir. A relação com comida e o nosso corpo não passou despercebida: é pintado um triste (mas verídico) quadro onde contracenam autoestima vinculado à aparência física e dietas restritivas como solução, numa tentativa vã de pertencer e alinhar com estes ideais de uma sociedade que nos tenta foder a cada esquina.


A natureza íntima da escrita de Ernaux transmite o sentimento de uma espécie de “labirinto de memória”, no qual ambos a escritora e audiência decifram simultaneamente as complexidades do passado desta rapariga. Penso que a narrativa não é tanto sobre encontrar respostas, mas sobre integrar e aceitar as incertezas que emergem com a reflexão. Ela não tenta transcender o poder das memórias, e aceita o abismo que o tempo colocou entre a própria e o seu “alter-ego desatualizado". No entanto, tenta ter vislumbres de compreensão, personificando e possuindo as suas versões anteriores: 


“I am her ghost, I inhabit her vanished being”


Ao longo do livro, há muita reflexão acerca do objetivo e natureza deste texto. Ela aceita o que o processo desta “peregrinação nostálgica” traz, sem finalidade no horizonte. Dá a sensação de um processo orgânico de produção artística, que não se guia pela estética ou produto final, mas pela regurgitação do passado e dos sentimentos que ele possa despoletar.


“I do not know what this piece of writing is. Even the thing I was pursuing by writing this book has dissolved.”



Este livro oferece uma reconstrução honesta da história de uma rapariga e os esforços de uma mulher para a compreender, aceitar, e viver com ela intrinsecamente, numa reconciliação sincera.


Como seria de esperar ao longo desta review, a minha admiração pela autora e o meu amor pelo livro não passaram despercebidos, e como tenho consciência que bajulação só é suportável até certo ponto, vou acabar de forma simplificada. Ouvi dizer que há duas métricas infalíveis para avaliar se um livro de facto foi impactante: quanto foi anotado e sublinhado (para aqueles que não têm medo de escrever nos livrinhos) e a quantidade de vezes que recomendamos e emprestamos. Em ambas as métricas, A Girl’s Story foi extremamente bem-sucedido.






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