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Ode a Elena Ferrante

1 de out.
3 min de leitura

Costumo encontrar mais dificuldades em escrever sobre alguém que admiro, mas nada se poderia sobrepor a esta carta de amor a Elena Ferrante.


Elena Ferrante, entrevista com Maggie Gyllenhall sobre o filme A Filha Perdida
Elena Ferrante, entrevista com Maggie Gyllenhall sobre o filme A Filha Perdida

Para quem não está familiarizado com este nome, Elena Ferrante é o pseudónimo de um/a escritor/a italiano/a (estou mais convencida de que seja uma mulher, mas será um argumento posterior), sendo o romance A Amiga Genial o seu trabalho mais conhecido e reconhecido.

 

Cruzei-me há alguns anos com a sua escrita, com a Tetralogia Napolitana. Fiquei obcecada, tão obcecada que tive de ir a Nápoles. Ao longo de quatro livros, é-nos criado um mundo, em que vemos densidade em todas as personagens que seguimos, abordando a profundidade, entre a beleza e o imbróglio, das relações familiares, de amizade e amorosas.  O que mais me arrepia, e a verdadeira razão desta carta de amor, é a maneira como esta autora descreve o que é ser mulher – e daí, a afirmação acima. Em todos os livros que li, a personagem principal é sempre uma mulher desafiadora de uns ou outros padrões que tenham sido pré-estabelecidos para a sua vida. 


Desde pequenos que somos ensinados que há vários sentimentos que não devíamos ter, a inveja é feia, o rancor é mau, e tudo se resolve com perdão, generosidade e tolerância. Não estou aqui para fazer pouco destas últimas qualidades, mas sim para ressaltar a importância de que todas as emoções (até as erradas) são essenciais, e sei que Elena concorda comigo. Sabem aqueles pensamentos que todos temos, e que não fariam os nossos progenitores orgulhosos? Aqueles que ninguém diz? Elena, com a sua irreverência, escreve-os. E não me mintam, todos nos relacionamos com eles. 


Alfred Eisenstaedt, Naples – Young Mothers (1947).
Alfred Eisenstaedt, Naples – Young Mothers (1947).

“As mulheres têm o seu pico aos 27, 28… Depois é sempre a descer”. Quantas vezes já ouvimos esta frase? Mais do que as que eu gostaria, certamente. A sociedade planta-nos a ideia de que nos tornaremos inúteis com o passar do tempo, o pico reprodutivo acabou, e nós também, pelos vistos. Não sei quando nos tornamos seres apenas instintivos e animalescos, com o único objetivo de perpetuar o ser-humano. Elena não nos vê assim, felizmente. Não interessa a idade ou a situação, atreve-se a descrever o que é uma mulher com objetivos, com desejo, uma mulher que se põe a si, à sua carreira, e à sua vontade, como prioridade.


Ainda no mesmo tópico, há outro peso que nos cai nos ombros. Vivemos num mundo em que esperam que tenhamos um desejo infindável de ser mães, e que, todo esse processo de enjoos e montanhas-russas hormonais, seja a experiência mais maravilhosa e excecional dos universos. E falando apenas da gravidez, nem me atravesso sobre o processo educativo de um novo humano. Mas, nem todas temos essa vontade, – oh não, o dever da procriação não foi cumprido –, nem todas somos talhadas para ser mães. A nossa amiga fala-nos disso (ai, quem me dera chamar-lhe “amiga”). Mais que isso, explora, indiretamente, a ideia de que pode até ser contraproducente ser mãe quando é algo imposto por ideais, e não uma vontade própria. Talvez por isso mantenha o anonimato, medo das represálias que proviriam das afirmações que esta realidade implica.


Não sei o meu futuro, mas gosto da liberdade de escolha, da compreensão de que nem todos somos moldados para o mesmo, do reconhecimento de que podemos sentir o espetro inteiro de emoções sem vergonha. E não há nada de errado. 


Elena, obrigada.




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